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Criado em 1970 por Álvaro Apocalypse, Terezinha Veloso e Maria do Carmo Vivacqua Martins, o Giramundo completa, em 2000, 30 anos de existência e funcionamento ininterruptos.
Em sua oficina no bairro Floresta, o grupo se dedica à pesquisa plástica e técnica para a construção de bonecos, à documentação de sua história e à experimentação de linguagem cênica do teatro de marionetes.
Freqüentemente o Giramundo oferece estágios, promove cursos, faz conferências e demonstrações, servindo de ponto de referência, teórica e prática àqueles que se interessam pelo teatro de bonecos.
Seu amplo acervo vem sendo restaurado com apoio da CIC – Companhia Industrial Cataguases e da CTBC – Telecom visando a criação do Museu Giramundo na cidade de Cataguases, em Minas Gerais.

A BELA ADORMECIDA

1971 / 1976 / 1991

 A “Bela Adormecida” foi a primeira montagem do Giramundo. Criada em 1971 e produzida em fundo de quintal, como passatempo e brincadeira familiar, por Álvaro Apocalypse, sua esposa Tereza Veloso e uma aluna da Escola de Belas Artes da UFMG, Maria do Carmo Vivacqua Martins (Madu). Os bonecos foram construídos  de forma simples, na técnica de bastão, e modelados em “papier collé”. Poucos bonecos restam desta primeira versão para contar história pois a maioria se perdeu, destruída pela fragilidade do material.

O texto foi adaptado, por Álvaro Apocalypse, à partir do conto de Charles Perrault. Como o Giramundo em seu início contava apenas com três integrantes, todas as cenas foram construídas para, no máximo, três manipuladores.

Com o sucesso informal da brincadeira, o recém formado grupo recebe o convite do Diretor do Teatro Marília, Júlio Varela, para uma temporada de “A Bela Adormecida” neste mesmo teatro. O Giramundo entra em cena pela primeira vez num sábado, dia 08 de maio de 1971. O sucesso de público foi imediato impulsionando novas temporadas.

Em 1976, após a criação de três novas montagens, Aventuras no Reino Negro (1972), Saci Pererê (1973) e Um Baú de Fundo Fundo (1975), o Giramundo remonta Ä Bela Adormecida”: mantém a trilha sonora da primeira versão e reconstrói todos os bonecos e cenários adaptando o espetáculo às novas condições técnicas do grupo. Em 1991 “A Bela Adormecida” é novamente remontada: reforma de bonecos, novo cenário, e nova equipe, tornando-se o primeiro espetáculo do grupo a trocar totalmente de mãos: uma nova geração de marionetista se forma.

Já em sua primeira montagem, o Giramundo contou com a participação de importantes atores de Belo Horizonte como Arildo Barros, Eduardo Rodrigues e Neuza Rocha, assim como a influência criativa de Paulo Joel (então nos Estúdios Bemol) para a gravação das trilhas sonoras. Esta característica marcaria a maioria das produções posteriores do grupo que, através do som de seus espetáculos, reconta um pouco da história do teatro mineiro.

Os bonecos de “A Bela Adormecida” são conhecidos tecnicamente como “marotes”.

AVENTURAS NO REINO NEGRO

1972

 Em 13 de maio de 1972, estreava, também no Teatro Marília, a segunda montagem do Giramundo: “Aventuras no Reino Negro”. Enquanto “A Bela Adormecida” foi construída em torno de uma adaptação de um conto famoso, “Aventuras no Reino Negro” foi criado como texto original por Álvaro Apocalypse. Neste momento se expressava uma preocupação pouco comum, como tema, para a época: a ecologia.

 A base da estória é a luta entre dois reinos: O Reino Negro, do Rei do Esgoto, e o Reino Verde, do Rei Tancredo. O Rei do Esgoto transforma a princesa do Reino Verde em flor e isto provoca a guerra. Surge, então, uma fada negra, “Joana”, para mostrar que o caminho não é a guerra e sim uma borboleta dourada que tem o poder de neutralizar o encanto. Enquanto isto, a flor (a princesa encantada) é cultivada por um simples jardineiro (que , na verdade, é o príncipe).

Assim como “A Bela Adormecida” a trilha de “Aventuras no Reino Negro” contou com a participação de atores experientes do teatro mineiro: Arildo de Barros, Jota D’Angelo, Joaquim Costa, Regina Reis, Mamélia Dornelles e José Adolfo Moura. A trilha sonora foi montada por Paulo Joel nos estúdios da Bemol. A peça contava ainda com um “coro grego” que comentava o espetáculo, sendo a primeira aparição de tal estrutura narrativa no Teatro de Bonecos.

SACI PERERÊ

1973

 Após as duas primeiras montagens, “A Bela Adormecida” e “Aventuras no Reino Negro”, a equipe do Giramundo realiza, em 1972, uma importante viagem para a França para participar do mais tradicional festival de teatro de bonecos do mundo, o Festival Mundial de Charleville-Mézières, e do Congresso da UNIMA (Union Internationale de la Marionnette). Após o contato com a multiplicidade de técnicas, grupos, espetáculos, exposições, cursos e bibliografia, o Giramundo volta  ao Brasil com novas referências e pontos de partida para a criação de seus espetáculos.

É exatamente neste contexto de efervescência e ampliação de horizontes plásticos e técnicos que o Giramundo produz sua terceira montagem: O “Saci Pererê”. Estreiando no Teatro Marília em 19 de maio de 1973, “Saci Pererê” foi criado para valorizar o folclore, a cultura e o ambiente mineiro. É um espetáculo sobre o sertão de Minas Gerais, sua música regional, suas festas e danças e seus personagens, como o Saci e Pedro Malazartes.

O “Saci” lança também o primeiro grande personagem do Giramundo: o palhaço “Libório”. Muito engraçado e simpático, “Libório” faz a apresentação do espetáculo, fala do mundo dos bonecos, conta como foi feito, desde seu projeto no papel até a confecção de partes de seu corpo, as ferramentas que foram usados pelos seres humanos para sua construção. Em seguida “Libório”explica como conseguiu perceber o mundo e as coisas, os homens e as crianças, outros bonecos e a alegria de viver.

As vozes  da trilha sonora são de Arildo Barros, Jota D’Angelo, Joaquim Costa, Neuza Rocha e Eduardo Rodrigues. A gravação de Paulo Joel nos estúdios Bemol. Com o “Saci”, o Giramundo excursiona pela primeira vez ao exterior: Argentina e Uruguai

UM BAÚ DE FUNDO FUNDO

1975

 Um Baú de fundo fundo foi a quarta montagem do Giramundo. Estreou dia 5 de junho de 1975, no Teatro Marília, numa sessão diferente das estréias anteriores:  às 21 horas e para adultos. De um modo indicativo, as experiências com público e texto infantis realizadas para a construção do “Baú”, e das montagens anteriores, já apontavam para o caminho no qual o Giramundo encontraria sua grande força: o teatro de bonecos  para adultos, com linguagem verdadeiramente teatral, sem os excessos do teatro de bonecos infantil. Bom gosto e apuro nos níveis técnico e artístico.

O “Baú de Fundo Fundo” é um conjunto de lembranças, estórias, lendas e cantigas populares. Com interesse explícito de preservação da cultura popular, prolongamento da temática do “Saci Pererê” (1973), o Baú coleciona, expõe e preserva um acervo da cultura mineira. Libório novamente entra em cena para comandar a ação e se notabiliza como o único personagem do Giramundo a participar de duas montagens distintas.

Novamente, como em todas as gravações de trilha anteriores, o Giramundo se afirma com um grupo cujo objetivo é a excelência: São escolhido os atores: Wilma Henriques, Joaquim Costa, Ezequias Marques, Arildo Barros e José Roberto Alvarenga. As músicas foram coletadas do folclore mineiro e interpretadas por José Alberto Nemer, José Maria Amorim, Mauricinho e Arildo Barros.

O “Baú” foi o segundo espetáculo mais apresentado do Giramundo, estando em atividade de 1975 à 1980, sendo superado, em número de apresentações, apenas por “Pedro e o Lobo” (1993). Com “O Baú”, o Giramundo foi convidado a participar do Festival Golfinho de Ouro, em Varna, na Bulgária sendo distinguido como o primeiro grupo estrangeiro a apresentar repertório próprio (pois o regulamento tradicional do festival só permitia repertório Búlgaro).

EL RETABLO DE MAESE PEDRO

1976

 A Ópera

Manuel de Falla recebeu convite da Princesa de Polignac para escrever uma ópera para seu teatro de bonecos (Madri-1919). O músico escolheu os capítulos xxv e xxvi de “Don Quijote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, para o assunto do trabalho. Manteve o texto original e pesquisou o folclore da Espanha para aclimatar a estrutura musical, muitas vezes baseada em pregões populares. El Retablo de Maese Pedro foi apresentado pela primeira vez em 25 de junho de 1923, na casa da princesa, tendo Wanda Landowska ao cravo.

 O Espetáculo

Encomendado e patrocinado pelo X° festival de Inverno da UFMG, El Retablo de Maese Pedro trouxe para o Giramundo uma nova experiência, tanto no que se refere a tema como a processo de criação. A montagem compreendeu um mês de trabalho intensivo, somando-se à equipe do Giramundo oito estagiários para confeccionar e manipular os bonecos.

A orquestra foi composta por professores e alunos do Festival, cabendo ao maestro Sérgio Magnani a responsabilidade da regência e ensaios da parte musical. O resultado final do trabalho foi levado a público em 30 de julho de 1976 no Teatro Municipal de Ouro Preto, tendo sido esta a primeira apresentação desta obra de Manuel de Falla no brasil, montada com orquestra, cantores e bonecos.

COBRA NORATO

1979

 

O POEMA

 Cobra Norato foi escrito, pela primeira vez, em 1921, em decorrência das andanças de seu autor, o gaúcho Raul Bopp, pela Amazônia e ainda sob a influência dos "nhengatus" de Antônio Brandão de Amorim, textos de forte influência indígena.

Com a transferência do autor para o Rio de Janeiro fica o poema em sua forma original até que, em 1927, já em São Paulo, com a carinhosa acolhida de Tarsila e Oswald de Andrade, Raul Bopp o recopia, acrescenta novas imagens e suprime versos.

O poema anda, então, de mão em mão nos círculos literários ligados à Antropofagia. Finalmente é editado em 1931 por iniciativa de amigos e à revelia do autor.

O MITO

Cobra Norato pertence à classe dos mitos serpentários do rico folclore da Amazônia, onde se incluem as lendas da Cobra Grande, da Boiúna e da Cobra de Óbidos e se relaciona com os mitos aquáticos da Iara, da Mãe d'Água, de Iemanjá e outros. Diz a lenda que uma cunhã foi engravidada pela Boiúna parindo então duas crianças que, obrigada pelo Pagé, atirou ao rio, onde se criaram transformadas em cobra.

O menino, chamado Honorato (Norato) era de boa índole, mas sua irmã Maria Caninana era perversa, perseguia animais e afogava náufragos, o que fez com que Norato a matasse para viver em paz.

Cobra Norato, à noite, costuma se transformar em rapaz elegante e dançar nas festas da beira do rio, deixando na margem seu imenso couro de cobra.

O ESPETÁCULO

Nesta montagem o Giramundo utiliza o poema de Raul Bopp em sua versão integral. Cobra Norato é o próprio poeta que vestido em pele de cobra corre mundo em busca da Filha da Rainha Luzia. Sai do fundo da Floresta Amazônica e se dirige a Belém do Pará. O sentido parece ser da selva para a civilização.

Cobra Norato é um boneco índio, seu companheiro de andanças, o Tatu, quando deixa o casco, é um boneco africano, a Filha da Rainha Luzia é um boneco de traços europeus. Quando o herói e seu companheiro têm o primeiro contato com um agrupamento civilizado os personagens também têm forma derivada de bonecos verdadeiros. No caso, bonecos de cerâmica do nordeste e do Vale do Jequitinhonha em  Minas Gerais.

A música do espetáculo é de autoria do maestro Lindembergue Cardoso sendo conhecida como uma das mais belas trilhas do Giramundo. Em 1979 Cobra Norato recebe dois troféus "Mambembe" do então Serviço Nacional de Teatro, o "Grande Prêmio da Crítica" da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Molière oferecido pela Air France.

 


AS RELAÇÕES NATURAIS           

1983

  

O AUTOR

 Jozé Joaqim de Qampos Leão Qorpo Santo nasceu em Vila do Triunfo, RS, em 1829, e morreu em Porto Alegre em 1883. Dramaturgo excêntrico e mal compreendido, só recentemente tem sido resgatado do esquecimento. Aos 35 anos de idade sofreu interdição judicial por terem se manifestado em sua personalidade sérios sintomas de doença mental. Inconformado, submeteu-se a inúmeros exames de sanidade mental, logrando obter de junta médica de prestígio a declaração de que podia reger a si próprio.

Editando a si mesmo, reuniu sua obra de maneira assistemática e confusa e em alguns volumes a que denominou "Ensiqlopedia ou seis mezes de huma Enfermidade" . Considerado por alguns estudiosos como precursor do Teatro do Absurdo e por outros como autor tipicamente realista, Qorpo Santo preconizava uma radical reforma na ortografia da língua portuguesa do século passado.

AS RELAÇÕES NATURAIS

            De uma maneira geral, o Giramundo prefere atuar nos espaços semi desertos e pouco frequentados do Teatro, nos limites do Teatro, onde o Teatro se funde e se confunde com outras artes. Assim, as particularidades da obra de Qorpo Santo apresentaram possibilidades dificilmente oferecidas por um texto convencional.

            Em "As Relações Naturais" o autor deixa largos espaços à iniciativa do encenador e admite mesmo a intervenção alheia em sua obra. Propõe finais abertos para os atos e, às vezes, apenas esboça a ação, deixando o desenvolvimento a critério dos atores.

            Qorpo Santo contribui ainda mais para tornar a interpretação de sua obra multifacetada quando atribui a uma personagem falas que aparentemente pertenceriam a outra. "Não quero mais servi-lo, não quero, não quero!" , diz furioso o Patrão ao empregado. Ou quando intervém encarnado no corpo das personagens em plena ação, interrompendo o fluxo lógico da fala, desviando o rumo presumido, grudando-se ao corpo novo.

            "As Relações Naturais" recebeu 4 troféus "João Ceschiatti" : melhor Diretor, Música Original, Produção e Espetáculo. A música original é de Lindembeergue Cardoso e a adaptação e direção de Álvaro Apocalypse.

AUTO DAS PASTORINHAS

1984

O AUTO

É uma forma de teatro de origem religiosa. Foi trazido de Portugal para o Brasil pelos Jesuítas que o utilizaram na catequese dos índios. Com o passar do tempo foram sendo incluídos personagens, bailados e cantos de origem popular brasileiros. São exemplos de auto brasileiro o Congado, a Marujada, o Bumba-meu-boi e as Pastorinhas.

AS PASTORINHAS

O auto das Pastorinhas é uma representação teatral com danças e cantos realizada diante do presépio para comemorar o Natal. Sua origem são os autos portugueses da Natividade e se divide em cenas ou jornadas que, além das danças e cantos, incluem ainda declamações e louvações. O espetáculo do Giramundo é uma adaptação de material musical pesquisado na região de Belo Horizonte pelo professor José Adolfo Moura e recriado e pelo maestro Lindembergue Cardoso,  somada à idéia do Presépio.

O PRESÉPIO

Acredita-se que o criador do Presépio tenha sido São Francisco de Assis, que armou o primeiro em Gréccio, na Itália em 1223. O Presépio procura representar o estábulo de Belém e as cenas que se seguiram ao nascimento de Jesus. A partir do século XVI introduziram-se as representações para se comemorar o Natal com cantos e danças como as Pastorinhas.

O GUARANI                                                

1986 e 1996

CARLOS GOMES

Compositor brasileiro (Campinas 1836/ Belém do Pará 1896), autor da ópera “O Guarani”, considerado como figura máxima do romantismo musical brasileiro da segunda metade do século XIX. Carlos Gomes encontra em sua formação italiana o desenvolvimento de seu gênio de melodista construindo, através do "bel canto" seu meio de expressão ideal. O Guarani estréia no Teatro Scala de Milão em 1870.

O ROMANCE

Obra do escritor cearense José de Alencar (Mecejana, 1829/ Rio de Janeiro, 1877), "O Guarani" foi publicado em 1857 renovando o tema indigenista no Brasil. Do romance se inspirou Carlos Gomes para compor a ópera. Do libreto se encarregou o poeta italiano Antonio Scalnini.

A HISTÓRIA

Tudo se passa nos primórdios da colonização do Brasil pelos portugueses. Narra a história de um fidalgo português que governava as novas terras em nome do Rei de Portugal. Sua fazenda em plena selva é um oásis de civilização cuja paz é perturbada por um conflito involuntário com a tribo dos Aimorés. Os índios se revoltam e a guerra é inevitável. No bojo da trama se desenrola a história do amor de Ceci, filha do fidalgo, e Peri, o jovem chefe Guarani.

O ESPETÁCULO

O Giramundo produziu duas versões de "O Guarani" (1986 e 1996). A primeira teve sua estréia em São João Del Rey dentro da programação do Festival de Inverno de 1986. Tendo forte conteúdo político, se apresentava como um panfleto expondo o processo de choque cultural criador das Américas. A segunda versão concentra-se na música e no romance entre Peri e Ceci, transformando-se numa ópera para bonecos.

GIZ

1988

  

GIZ

Antes o boneco, o marionete. Sua carne de espuma, sua pele de pano, seus ossos de madeira. Depois seu ar de abandono dependurado no cabide. Que o boneco crie sua própria história, gorda e torta como sua disforme anatomia.

É como quando se viaja por muito tempo e para muito longe: se fecha a casa e se cobrem os móveis com lençóis. O tempo escorre e tudo se cobre de poeira. A vida dorme.

Ah, o tempo... O tempo passa e tanto passa que até as sereias envelhecem. Mas não abandonam o velho charme. Afinal, o amor não é exclusividade de belos e lindos.

Na casa vazia, os fantasmas da família cultivam zelosamente tédio e neurose. Ora, a humanidade eterniza erros enquanto ratos roem um passado de glórias. Afinal tudo é como frágil esboço no quadro negro: uma mão, um trapo e... Giz! Tudo apagado!

O ESPETÁCULO

"Giz" não apresenta uma história corrida. São doze quadros independentes, marcados pelo branco onipresente. Não há diálogos, mas uma linguagem gestual integrada à música. A temática lida com o fantástico e o absurdo, com expressões que vão do lúdico ao demoníaco, do singelo ao monstruoso.

O processo de montagem seguiu o caminho inverso ao dos anteriores: os bonecos antecederam  e criaram o roteiro. A dureza das formas esculpidas em madeira ou isopor emassado cedeu lugar à modelagem flexível em espuma. Os bonecos tornaram-se totalmente brancos sendo ocasionalmente coloridos pela iluminação e os manipuladores afirmaram-se como personagens presentes em cena.

O espetáculo foi construído durante o XX° Festival de Inverno da UFMG em Poços de Caldas. A trilha original de Giz foi composta por Eduardo Álvares, o texto e direção são de Álvaro Apocalypse.. Em 1989 "Giz" excursionou pelo Brasil com o Projeto Mambembão e para a França para se apresentar no Festival International de la Marionnete  em Charleville Mezières.

A FLAUTA MÁGICA                        

1991

  

A ÓPERA

 A 30 de setembro de 1791 estreava em Viena "A Flauta Mágica". Uma das mais belas obras do prodigioso legado musical de Wolfgang Amadeus Mozart à história da humanidade. Pouco mais de dois meses depois, a 5 de dezembro do mesmo ano, o compositor morria em Viena e a música perdia um de seus maiores gênios de todos os tempos.

 O LIBRETO

O autor do libreto de "Die Zauberflöte" Johanm Joseph logo se deu conta de que, para prosperar em Viena, deveria economizar o seu repertório sério e clássico em favor de um teatro cantado, cômico e romântico que, se alemão, seria uma estrada segura para o sucesso.

A estória de Lulu foi, sem dúvida, a fonte inicial da 'Flauta'. Trata das aventuras do Príncipe Lulu, filho do rei de Khurasan, enviado por Pirifirime, uma fada boa, para salvar sua filha Sidi do terrível feiticeiro Dilsengbuim que a havia raptado. Ao príncipe foi presenteada uma flauta encantada que captava a simpatia dos que a ouviam, homens e animais.

Outra fonte usada por Schinkaneder foi à novela francesa "Sethos" de Jean Terrason, publicada em Paris em 1731. Foi profunda a  atração que sentiram libretista e compositor, ambos maçons, diante de um texto com a ação transcorrendo no antigo Egito onde a Maçonaria proclamava sua origem. Praticamente todos os elementos ligados à ela são baseados em "Sethos": a serpente, , os ritos de iniciação, as provas da água e do fogo, a existência de uma classe mais baixa de iniciados e a prova da superioridade masculina, na qual o homem deve resistir às tentações da mulher. A Flauta Mágica torna-se não somente um conto de fadas, mas também uma glorificação à Maçonaria.

O ESPETÁCULO

A montagem do Giramundo de "Flauta Mágica" se situa numa distante Idade Média, em época um pouco antes daquela em que esfinges, faunos e centauros se afundaram terra a dentro para sempre. Sendo mais preciso no ano 1.100 do Planeta Pedra.

Neste planeta lunar de cenário megalítico, onde tudo é silêncio e imobilidade, espera-se que alguma coisa, um hálito, um sopro, insufle vida nestes personagens míticos de olhares distantes. Espera-se o sopro de uma flauta mágica.

Quando ele vier, na certa estes olhos se acenderão. Estes personagens lendários encontrarão seu universo original, suas velhas paixões, seus antigos sonhos fluirão no tempo e no espaço.

LE JOURNAL

1992

 Le Journal surge com uma adaptação da primeira versão de “O Diário” (1990). Enquanto o primeiro tratava de temas específicos do Brasil, principalmente no que toca à produção cultural, o segundo se ligava à questões mais generalizantes como o subconsciente e a psicanálise. Esta segunda versão passou, então a se chamar “Le Journal” e teve todo o seu texto adaptado para a língua francesa para integrar a programação do festival  “Musique en Mouvement” realizado em Charleville Mézières (França) em 1992. Como este festival exigia apresentações musicais ao vivo, foi convidado  o grupo de música contemporânea “O Grivo” que se integrou tanto na criação da música, como na montagem do roteiro.

A relação música-cena de “Le Journal” se distingue dentre as montagens do Giramundo por ser baseada, em grande parte, no improviso. As marcações de cena eram mais abertas para poderem dialogar com uma música em constante transformação.

O espetáculo estreiou em Belo Horizonte no Teatro Klaus Vianna seguindo posteriormente para a França  onde se apresentou nas cidades de Charleville Mézières, Reims e Arras.

TIRADENTES

1992

TRILOGIA BRASIL

"Tiradentes, uma História de Títeres e Marionetes" foi criado para integrar a "Trilogia Brasil" do Giramundo, formada ainda pelos espetáculos "Cobra Norato" e "O Guarani". Idealizada e financiada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, a "Trilogia" visava comemorar três importantes marcos históricos de 1992: os 500 anos de Descobrimento da América, o Bicentenário de  morte de Tiradentes e  os 70 anos da Semana de Arte Moderna.

O ESPETÁCULO

O espetáculo é conduzido e comentado pelos três poetas da Inconfidência Mineira, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto, que, reduzidos à condição de  mendigos, lamentam-se pelo abandono da História (ou da memória) a que foram relegados. Cenas desenham a situação do povo, do clero, dos burocratas, escravos, aristocratas e coronéis, dos brasileiros e portugueses na província das Minas Gerais, no século dezoito.

Depois de estreiar em teatro fechado, Tiradentes foi adaptado para a rua . Esta tendência em buscar espaços alternativos e maior contato com o público se acentuou em montagens seguintes do Giramundo

OS BONECOS

O Giramundo adotou uma forma de bonecos que se alinha à tradição dos veneráveis "pupi napolitanos" e dos marionetes "a tringle" dos teatros franceses e belgas. Não pela técnica ou manipulação em si, mas pelo que representaram como gêneros que se afirmaram ao lidarem com a História através de uma linguagem popular e de crítica contundente e bem humorada.

PEDRO E O LOBO

1993

“É  dever do compositor servir seus companheiros, embelezar a vida humana, e apontar o caminho para um futuro radiante”. Com esta afirmação cheia do otimismo pós revolucionário, Sergei Prokofiev anunciava em 1933, ao voltar do ocidente para a Rússia, sua terra natal, a função social de sua música: contribuir para a construção de um mundo melhor.

Neste momento, Prokofiev, recebendo sugestão de Natalie Satz (diretora do Teatro Infantil de Moscou),  concebe a  história de um valente menino e de um lobo, para ensinar às crianças as diferenças entre os instrumentos de uma orquestra. Após duas semanas a música estava pronta.            

O sucesso da peça musical foi imediato. Prokofiev ganha enorme reputação como “compositor infantil”, a ponto do comissário de suprimentos do governo soviético, Anastas Mikoyan, convidá-lo para conduzir um programa de popularização de canções, poemas e contos infantis tradicionais.

A versão para bonecos de Pedro e o Lobo reforça com imagens a idéia inicial da versão musical: compartilhar com as crianças a estrutura elementar de uma orquestra, seus principais timbres e grupos de instrumentos.

O Giramundo optou pelo marionete a fio por sua ampla gama de movimentos que proporcionam grande possibilidade de expressão. A figura e o texto do narrador, previstos na partitura de Prokofiev, foram substituídos pelos marionetistas que reduziram as intervenções explicativas dentro da parte musical e reforçaram as informações sobre os instrumentos musicais.

A idéia teatral do espetáculo é sintética e comunicativa. Os cenários foram substituídos por um desenho em um quadro negro, as vozes dos personagens surgem ao vivo e o plano do palco passa a ser o do chão. Ao mesmo nível dos pequenos espectadores. O resultado é uma grande brincadeira aonde as crianças se divertem, se emocionam e aprendem.

 

O CORTEJO BRASILEIRO

1993

O Cortejo Brasileiro foi um trabalho de criação livre da oficina “Máscaras e Bonecos”, realizada no XXV Festival de Inverno da UFMG. Cada aluno desenvolveu um trabalho individual de projeto e construção de um boneco de rua, orientado por Álvaro Apocalypse, Tereza Veloso e Madu. Concluídos os bonecos, uma apresentação em forma de desfile foi organizada, à partir de texto de J. Dangelo e da música, executada ao vivo, por uma banda, do setor de música do festival, regida pelo maestro Fred Dantas.

O Cortejo Brasileiro desencadeou o processo de construção dos bonecos de grandes dimensões com a técnica de mochila e da utilização da rua como palco pelo Giramundo.

ANTOLOGIA MAMALUCA

1994

O ESPETÁCULO

Em sua oficina no 26° festival de Inverno em Ouro Preto o Giramundo promoveu um divertido e mítico encontro entre duas entidades que se frequentam há séculos: o teatro de bonecos e a poesia satírica. A partir do texto agressivo e provocante do poeta Sebastião Nunes o Giramundo realizou sua versão da "Antologia Mamaluca" utilizando-se de marionetes construídos de forma grotesca e áspera, com arames e retalhos.

O espetáculo flui através de três aspectos: invocação, provocação e escatologia. A crítica política e social, sátira e escatologia presentes nos poemas construíram   um universo de decadência e podridão habitado por prostitutas, bêbados, poetas, casais e políticos corruptos traduzidos em diferentes técnicas de manipulação. Grotescos marionetes a fio, bonecos gigantes habitáveis, teatro de sombras e próteses foram usados tornando-se referências que se desenvolveriam em espetáculos posteriores.

A ANTOLOGIA MAMALUCA

Por se utilizar de texto agressivo e provocante, Sebastião Nunes - poeta, ensaísta, publicitário e artista gráfico - foi, muitas vezes, tido pela crítica como um poeta marginal. Para dar vazão à sua poesia, o autor resolve editar seus livros através de sua própria editora, a "Dubolso". Resultado de um trabalho de vinte anos, os volumes da "Antologia", com uma edição de 1000 exemplares e circulação restrita, reunem grande parte da obra escrita e gráfica de Sebastião Nunes.

UBU REI

1995

 ALFRED JARRY E “UBU ROI”

 A 10 de dezembro de 1896 se apresenta, pela primeira vez, a peça “Ubu Roi”     (Ubu Rei ) do escritor francês Alfred Jarry (1873-1907). Com Ubu Rei, Jarry funda o teatro de vanguarda originando ou fundamentando o teatro surrealista, o teatro do absurdo e o teatro trágico contemporâneo.

Entre 1885 e 87, os irmãos Charles e Henri Morin, estudantes do Lycée de Rennes, haviam dado forma teatral a uma série de materiais do folclore escolar inspirados no professor de física “senhor Hebert”, “a encarnação de todo o grotesco que existe nno mundo”. O titulo da peça: Les Polonais (Os Poloneses).

Em 1888, Jarry ingressa no Lycée de Rennes e conhece os irmãos Morin, reescrevendo “Os Poloneses” e organizando uma série de apresentações caseiras da peça. Em 1893, já como escritor profissional, Jarry publica um fragmento intitulado “Guignol”, onde pela primeira vez aparece o nome “Ubu” derivado de um dos apelidos do profressor Hebert. Em 1895 é publicada a versão integral de Ubu Roi no “Mercure de France”.

Familiarizado com o drama Elizabetano, admirador de Grabbe e Rabelais, Jarry não teve dificuldades em demolir as tendências naturalistas do teatro de sua época. Ubu Rei é um exercício de liberdade, da liberdade da infância. O grande mérito de Jarry foi o de não haver modificado a essência da mitologia escolar, produto de uma criação coletiva de vá rias gerações de alunos do Lycée de Rennes, mantendo toda a crueldade, a ingenuidade, a insolência, a transgressão, a escatologia e o sentido de subversão da infancia.

 A Montagem

 A iniciativa do Giramundo em montar Ubu Rei decorreu da importância deste texto para a história do teatro contemporâneo e do estreito vínculo da obra com o teatro de bonecos, já que as primeiras montagens da peça foram realizadas com bonecos e com  teatro de sombra sendo os personagens criados e construídos pelo próprio Jarry.

Seguindo a tendência a ocupar grandes espaços, principalmente na rua, iniciada com “O cortejo Brasileiro” (1993), o Giramundo opta por bonecos de grande porte, utilizando as técnicas de “mochila” e “próteses” (adereços fixados ao corpo do manipulador) já desenvolvidas anteriormente na “Antologia Mamaluca” (1994).

O espetáculo foi produzido pelo XXVII Festival de Inverno da UFMG tendo sido apresentado na Praça Tiradentes em Ouro Preto.

CARNAVAL DOS ANIMAIS

1996

 SAINT SAËNS

Nascido em Paris, o autor de "Carnaval dos Animais", Charles Camille de Saint Saëns (1835-1931), foi considerado na época criança prodígio, tendo dado seu primeiro recital aos onze anos de idade. Um dos maiores organistas de seu tempo, Saint Saëns dedicou-se a vários gêneros musicais escrevendo óperas, poemas sinfônicos, concertos para piano, violino e violoncelo, cantatas, oratórios e música de câmara.

CARNAVAL DOS ANIMAIS

"Carnaval dos Animais" é uma série de 14 músicas incluindo-se no gênero música de  câmara sendo classificada como "fantasia para pequena orquestra". O Giramundo usa esta série de forma completa acrescentando-lhe uma pequena história onde os animais de uma floresta da Terra da Imaginação se reúnem em uma grande festa.

O marionete de fio é a base técnica do espetáculo pois sua pauta de manipulação rica em recursos possibilita um desenvolvimento da encenação paralelo à prodigiosa execução exigida pela bem humorada música de Saint Saëns.

Correspondência com outras versões

 

O Giramundo utilizou material de peças anteriores para compor uma versão inédita. Dos antigos diários o Giramundo recuperou algumas técnicas como, por exemplo, o que nós chamamos de técnica de cavalete: o Vicente Vicentino de cabeça, corpo e braços separados é o mesmo Marion da primeira versão do diário (1991). A desproporção também já havia sido experimentada em Qorpo Santo e Giz: a deformação da figura caracterizando uma deformação moral. Hoje, no Diário, a proporção serve para mostrar que na cabeça do protagonista as pessoas têm estaturas diferentes, uma hierarquia. Assim, o servente, por exemplo, tem 40 cm de altura e o namorado, rival do protagonista, tem uma cabeça de dois metros e sessenta.".O cenário participa ativamente da peça . Ele deixa de ser simplesmente uma  decoração para representar a cosmogonia, a concepção de mundo do protagonista.

"Nós mal demos o primeiro passo em direção a um gênero que pode se ampliar muito que são estas formas  de grandes dimensões que têm muito a ver com o teatro fantástico buscado pelo grupo.  À medida em que adquirimos esta técnica de construção nos habilitamos a fazer espetáculos com formas escultóricas de grandes dimensões."

"E é também uma concepção à parte pois o marionete não é só o boneco: ele é  uma obra de arte no sentido de ser uma forma escultórica com uma ação cênica. Não é só o boneco, não é só a escultura. Ele é o encontro da escultura com o boneco. É aí onde estamos tentando de certa forma chegar."

Outra coisa que está a par com estes bonecos deslizantes que estamos fazendo, estas lambretas, estes karts, é a experimentação do controle remoto como recurso para a manipulação. Não apenas os veneráveis fios ou varas mas também ondas de rádio abrindo novas possibilidades de trabalho.

 O Diário, a adaptação do Giramundo

A montagem do Giramundo  baseada no conto”O Diário de um Louco” de Nicolai Gogol conta a estória de um funcionário público humilde que de tanto ser desprezado e humilhado começa a desenvolver sintomas de loucura achando que tem parentesco e origem nobres. No processo de enlouquecimento cria para si um objeto de paixão inatingível: a filha de um figurão do funcionalismo público diretor de uma repartição qualquer. Mas o objeto de seu amor é inteiramente indiferente a ele. Depois de várias tentativas de aproximação e conseqüente repulsa começa a criar a fantasia de que é o rei de um país até o grau de loucura avançar ao ponto de ser necessária a sua internação num hospício. Enclausurado, acredita ter tomado posse da coroa de um determinado Estado  transformando todos os seus colegas loucos, médicos e enfermeiros em súditos e membros desta corte. Por fim sofre o tratamento que todo maluco recebe, tem sua cabeça raspada, recebe pancada, até um momento de clarividência onde percebe sua situação se arrependendo de ter deixado que o desvario tomasse conta de sua mente.

A REDENÇÃO PELO SONHO

1998

Ópera em um ato sobre a vida e obra de Monteiro Lobato
de Tim Rescala

A narrativa se passa no dia da morte de Monteiro Lobato, a 4 de julho de 1948. O escritor está em sua mesa de trabalho, respondendo a uma carta de seu grande amigo Godofredo Rangel, sem imaginar que esta seria a derradeira.

Godofredo, em sua última carta a Lobato, sugere que este escreva suas memórias, mas o escritor argumenta, em sua resposta, que não vê motivos para isto. Lobato acha que amargou muitos insucessos em sua vida, não vendo porque revivê-los agora. Mas, como que para provar ao amigo seu ponto de vista, começa a narrá-los, desde seus fracassos escolares até suas empreitadas como promotor público, industrial, fazendeiro, editor, e jornalista.

À medida em que Lobato descreve os fatos, tentando mostrar ao seu amigo a falta de sentido em contar suas memórias, os personagens, tanto os que realmente existiram, quanto os que ele inventou, vão surgindo em seu quarto. Inicialmente assustado, o escritor logo se acostuma à idéia, considerando-a mais um de seus devaneios literários.

Como que voltando no tempo, Lobato passa sua vida a limpo, travando com seus personagens as discussões que promoveu em vida com tanto empenho e paixão, tendo sempre o Brasil como principal referência.

Suas criações não se limitam, contudo, a obedecer às ordens de seu criador. Elas interferem no rumo dos fatos, sempre mostrando o lado positivo de cada aventura (ou desventura) vivida por Lobato. As vezes, até brigam com ele, quando se consideram injustiçados pela narrativa. Desta forma, real e imaginário confundem-se a todo momento.

A cada aventura vivida, no entanto, o pessimismo se apossa de Lobato, que insiste em se considerar um perdedor. Suas criações, porém, conseguem sempre reverter a situação, dando-lhe forças para seguir adiante.

Os fatos são narrados cronologicamente até que Lobato se dá por vencido. Concorda, finalmente, em escrever suas memórias, se convencendo de que tem um bom legado a deixar. Antes de terminar sua última carta ao seu grande amigo Godofredo, ele decide repousar um pouco: foram muitas aventuras para um homem de sua idade. Neste momento, seus personagens se colocam ao redor de seu leito. Cansado, mas feliz e recompensado, ele faz também sua “Viagem ao Céu”, encarando a morte como mais um devaneio literário, como mais um vôo de sua imaginação. É a sua “Redenção pelo Sonho”.

A MÚSICA

Sendo uma ópera de câmara em um ato, sem intervalo, o espetáculo tem o discurso musical como ponto de partida. Embora não destinada diretamente às crianças, a obra terá o universo infantil sempre presente, fazendo com que o clima sonoro da obra seja sempre lúdico e fantasioso.

Em termos de estilo, a música procura transmitir elementos de brasilidade, tão presentes e tão caros à obra de Lobato, sem dispensar, contudo, características mais contemporâneas. O atonalismo livre, o minimalismo e o teatro musical dividirão o espaço com procedimentos tonais, característicos tanto da música erudita, quanto da música popular. A utilização destes procedimentos ao longo da obra, se fará de acordo com o próprio desenvolvimento do libreto, ajudando a caracterizar um universo sonoro para cada um dos personagens. A exemplo de minha ópera infanto-juvenil “A Orquestra dos Sonhos”, esta ópera terá um universo sonoro novo, mas bastante acessível.

Cinco cantores líricos e dois atores (marionetistas), cujas falas serão elaboradas musicalmente, farão diversos personagens, sendo que apenas um cantor, um tenor, fará Lobato.

Um grupo de sete músicos acompanhará os cantores: flauta, clarinete, trombone, violino, violoncelo, piano e percussão.

CIRCO TEATRO MARAVILHA

1984/1998

O Giramundo apresenta sua nova montagem infantil, “O Circo Teatro Maravilha”. Esta montagem segue a mesma estrutura de Pedro e o Lobo, ou seja, espetáculo infantil de pequeno porte, ágil e de fácil montagem e desmontagem, o que permite sua apresentação nos mais diversos espaços: do teatro convencional à rua. O Circo Maravilha é baseado na linguagem direta, improvisada e bem humorada. Assim como em uma brincadeira, onde as crianças, os atores-manipuladores e os bonecos interagem criando o espetáculo. Os bonecos são do tipo de luva ou fantoches, constituindo a única coleção deste gênero dentro do acervo do Giramundo.

O Circo Teatro Maravilha é uma miniatura de um circo de verdade só que não é de gente, a maioria são bonecos: tem apresentador, mágico, domador, leão, guarda e, claro, vários palhaços. A começar pelos atores, que abrem o espetáculo com uma grande confusão: brincadeiras, animação e jogos. A seguir o Circo Maravilha apresenta seus personagens: “Herr Schultz”, o maior domador da terra, “Leo” o leão que insiste em não ser domado, “David Corpofinis” e suas mágicas, “John Yang”, o levantador de peso, as minhocas amestradas, “Biló e Balú” os palhaços e mais surpresas. Atenção criançada, o show vai começar!

O GATO MALHADO E A ANDORINHA SINHÁ

O texto "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá" foi escolhido pela importância do autor, Jorge Amado, para a literatura brasileira, além de suas peculiaridades, como a ausência da fórmula condicional do "final feliz". Não existe o maniqueísmo, o bem  e o mal configurados como tal. A história é um universo de afeições e toca diretamente no problema do preconceito e da intolerância. E, apesar de tudo, traz a mensagem positiva de que amar vale a pena.

Diferentemente de sua última montagem infantil, "O Carnaval dos Animais", "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá" traz trilha sonora original, especialmente composta. A música mudou e desta vez não contém instrumentos. Por isso é exclusivamente vocal. O espetáculo procura uma limpidez, uma despojamento em todos os níveis, uma pureza em seus aspectos sensíveis, seja a cor, a forma, o som ou o movimento. Pela primeira vez, o Giramundo compõe um apresentação coral ilustrada.

Plasticamente, “O Gato Malhado” é uma tentativa de incorporar novas formas, um conteúdo novo. É a forma se impondo à função, através de duas adoções: primeiro, a inspiração dos desenhos infantis, de um certo comportamento criativo da criança. Uma concepção formal vinda da concepção infantil. Não só as alterações na perspectiva ou nas formas, mas principalmente na interpretação dos personagens. Assim, os pássaros têm asas “explícitas” pois sua característica principal é voar, ou o cachorro tem muitos dentes aparentes pois uma de suas qualidades marcantes é morder.

Esta é a história de um gato que se apaixona por uma andorinha causando estranheza em todos os outros animais que habitavam uma floresta. A Andorinha está prometida ao Rouxinol mas, ao mesmo tempo, incentiva o amor do Gato. Acontecem juras, o Gato escreve poemas, eles passeiam juntos enquanto os outros personagens condenam o amor impossível.

FICHA TÉCNICA

Adaptação do texto, Projetos dos bonecos, Figurino, Iluminação, Cenografia e Direção Geral: Álvaro Apocalypse

Oficina de Construção: Ulisses Tavares, Beatriz Apocalypse, Paulinho Polika, Weracy Trindade, Selma Veloso, Júnia Mellilo, Cristiana Drummond, Corjesus Costa e Rodrigo dos Santos

Pintura: Terezinha Veloso e Sandra Bianchi

Oficina de Cenografia: Felício Alves

Trilha sonora: Máccio Sant’ana

Direção Musical: Ernani Maletta

Coral: Voz & Cia

Execução dos Figurinos: Weracy Trindade

Projeto Gráfico: Marcos Malafaia

Fotografia: Marcos Malafaia

Direção de Produção: Adriana Apocalypse

Produção Executiva: Luiz Fernando Vitral

Assistente de Produção:Carluccia Carrazza Gambogi

Agradecimentos: Patricia Lamego e Cristiano Naves Garcia (BBS), Ricardo de Oliveira (Coca Cola), Cecília Bhering (CEMIG), Dr. Renato do Vale Dourado (Lages Premo), Maria Aparecida Andrés, Nelly Rosa, Miriam Brum, O Grivo

JORGE AMADO

Romancista brasileiro nascido em Pirangi, Bahia em 1912. Autor de inúmeras obras, dentre as quais, 25 romances, dois livros de memórias, duas biografias – a do poeta Castro Alves e a do comunista Luis Carlos Prestes – duas histórias infantis e uma infinidade de outros trabalhos, entre contos, crônicas e poesias. A sua obra, marcada pela crítica social, caracteriza-se também pelo humor, mantendo porém a essência poética. Coincidência ou não, o fato de dar seus primeiros passos na carreira literária, em 1922, ano da reali- zação da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, marcaria Jorge Amado para sempre por este movimento, que modificou o modo de pensar o Brasil não mais como uma cópia da Europa, mas como um país de cultura própria. Em São Paulo, escritores, pintores e poetas contextualizavam um modo de resolver o problema da identidade nacional, a partir de uma produção artística voltada para sua própria cultura. O moderno romance brasileiro tomou nova forma e conteúdo social após José Américo de Almeida (1887-1969) ter escrito “A Bagaceira”, uma estória pioneira sobre as àsperas condições de vida em um nordeste em decadência. Ele foi seguido por Jorge Amado (1912-), Graciliano Ramos (1892-1953), José Lins do Rego (1901-1957), e Rachel de Queiroz (1910-), todos marcados pelo poder de suas imagens em evocar os problemas e misérias da vida na região nordeste onde eles nasceram. Os primeiros romances de Jorge Amado, traduzidos para 33 línguas, foram fortemente influenciados por sua crença nos ideais marxistas e centrados no sofrimento dos trabalhadores das plantações de cacau e dos humildes  pescadores das vilas praianas de seu estado natal, a Bahia. Nos anos cinquenta, ele opta por uma visão mais jovial das alegrias e tristezas das classes médias da Bahia, produzindo uma sucessão de livros que receberam reconhecimento mundial. “Gabriela, Cravo e Canela” é talvez o mais conhecido dos livros de Jorge Amado. “Dona Flor e seus Dois Maridos baseou roteiros para filmes, peças teatrais e séries televisivas. A sua obra inclui ainda grandes livros como “Mar Morto”, um retrato mágico da vida arriscada dos pescadores e canoeiros do litoral nordestino e da magia que o mar exerce no controle da vida e no descontrole da morte; ou “Cacau” que descreve a vida dos assalariados do cacau, moralmente dominados pelos coronéis, mas impulsionados por uma íntima convicção pela melhoria de suas condições de vida, ou ainda “Tenda dos Milagres” que revela o mundo mágico dos cultos afro-brasileiros.

É esta narrativa fluidora que fez de Jorge Amado um dos maiores escritores do século XX no Brasil, cuja produção literária é a mais conhecida mundialmente.

01. O País do Carnaval
02. Cacau
03. Suor
04. Jubiabá
05. Mar Morto
06. Capitães de Areia
07. ABC de Castro Alves
08. Terras do Sem Fim
09. O Cavaleiro da Esperança
10. São Jorge de Ilhéus
11. Bahia de Todos os Santos
12. O Amor do Soldado
13. Seara Vermelha
14. Os Subterrâneos da Liberdade
15. Gabriela, Cravo e Canela
16. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água
17. Os Velhos Marinheiros
18. Os Pastores da Noite
19. Dona Flor e seus Dois Maridos
20. Tenda dos Milagres
21. Tereza Batista Cansada de Guerra
22. O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá
23. Tieta do Agreste
24. Farda, Fardão e Camisola de Dormir
25. As Mortes e o Triunfo de Rosalina
26. A Estrada do Mar
27. Philadelpho
28. De como Mulato Porciúnculo Descarregou    
    
seu Defunto
29. O Mundo da Paz
30. O Menino Grapiúna
31. A Bola e o Goleiro
32. Tocaia Grande
33. Senhor
34. Berro D’água
35. O Solar dos Azulejos
36. O Sumiço da Santa
37. A Apostasia Universal de Água Brusca

MARCINHO SANTANA

Regente, Cantor, Preparador Vocal, Arranjador, Professor e Ator, iniciou seus estudos musicais na Fundação de Educação Artística, onde estudou Musicalização, Piano, Técnica Vocal, Harmonia e Improvisação, participando também de diversos Laboratórios de Expressão.

Foi professor nos 25º , 26º , 28º e 29º  Festivais de Inverno da UFMG - Ouro Preto, quando coordenou as oficinas "Prática em Grupo Vocal" e "Canto Coral", envolvendo-se também com as Oficinas do Grupo Uakti e Giramundo.

Com o Grupo Galpão, há 6 anos realiza um trabalho de direção musical e vocal. É integrante do Voz e Cia desde 1989.

ERNANI MALETA

Regente, Cantor, Preparador Vocal, Arranjador, Professor e Ator, iniciou seus estudos musicais na Fundação de Educação Artística, onde estudou Musicalização, Piano, Técnica Vocal, Harmonia e Improvisação, participando também de diversos Laboratórios de Expressão.

Foi professor nos 25º , 26º , 28º e 29º  Festivais de Inverno da UFMG - Ouro Preto, quando coordenou as oficinas "Prática em Grupo Vocal" e "Canto Coral", envolvendo-se também com as Oficinas do Grupo Uakti e Giramundo.

Com o Grupo Galpão, há 6 anos realiza um trabalho de direção musical e vocal. É integrante do Voz e Cia desde 1989.

ACORDA MANHÃ

Acorda manhã bem devagar, acorda levanta bem devagar
Espreguiçar, bocejar, acordar, levantar ...
Devagarinho acorda as estrelas
Sopra, sopra, sopra, sopra bem devagar
Devagar, bem devagar, põe o sol pra esquentar
Sopra, sopra, sem se cansar, aí vem o tempo te ajudar

NO GALINHEIRO ( SAMBA-CHORO)

Galo:    Co-co-co-co-coricó
Todos:  Co-co-có como canta nosso galo Carijó                             ] BIS

          
Co-co-co-co-como canta, co-co-co-como canta o Carijó
           
Co-co-co-co-como canta, co-co-co-como canta o Carijó
Galo:    Co-co-co-como canta o Carijó, co-co-co-como canta o Ca-ri-jó!
Galinhas:  Não há galo no mundo que cante tão lindo, como nosso Carijó
                
E quem é que teria tamanha ousadia de se comparar a tal galhardia

                 Quem, quem, quem?

                 Só mesmo o malvado gato!

Todos:     Que gato?

Galinhas:  O Gato Malhado!

                 Gato malcriado, malvado, avacalhado, já fez de tudo o ateu

                 Já unhou já mordeu, já deixou bicho esfolado

                 Já roubou, já escondeu, já matou, já foi julgado

                 E a sentença já recebeu:

                 Co-co-có-co-culpado e có-condenado

                 Co-co-có-co-culpado e có-condenado

Bicho 1: Mas anda solto por aí o renegado!

Bicho 2: Para o bem dessa floresta ele devia ser castrado!

Bicho 3: É um Pittbull fantasiado!  

Bichos machos: - BEM QUE PODIA SER ENFORCADO!

Todos:  Có!

             Co-co-có como canta nosso galo Carijó         ] BIS

             ( repetindo, diminuindo e saindo...)

 

O TEMPO

O tempo passa o tempo vem

Quem não tem tempo, tempo tem

O tempo passa o tempo vem

Quem não tem tempo, tempo tem

 

CANÇÃO DA PATA

Pata:   - Pata sou, e pata sempre serei, amiga do rei   ( Coro:  Qualquer rei...)

            Quem, quem, quem, quem                            ( Coro:  Qualquer rei...)

            Sou amiga do rei.

           Se o rei for gato ao invés de pato, que barato!

           Não sou eu quem paga o pato

           Mais dedicada ainda serei, sou amiga do rei    ( Coro:  Qualquer rei...)

           Sou amiga do rei,

           Mas reparando bem, mesmo sendo rei             ( Coro:  Quá-quá-quá...)

           Que falta lhe faz 

           Um par de penas no rabo, um bico amarelo,

           Um balanço singelo, um par de asas

           E completando o retrato em cada pata um pé de pato.

           Dizem que o gato faz e acontece, mas não aborrece ninguém

           E nem é assim tão chato, até que ele é um gato pacato

           Pena que não seja gato...                                  ( Coro:    Ai, que dó..  .)

           Pena que não seja gato,

           Mas reparando bem, mesmo sendo rei             ( Coro:  Quá-quá-quá...)

           Que falta lhe faz 

           Um par de penas no rabo, um bico amarelo,

           Um balanço singelo, um par de asas

           E completando o retrato em cada pata um pé de pato!

           Um rabo, um bico, um par de asas

           E completando o retrato em cada pata um pé de pato!

Coro:  Um pé de pa-a-to!

 

A DOGGY DAY ( AND THE LIVING AIN'T EASY )

Cachorro :  Foi o Gatão, foi o Gatão

Coro:          A-uhhh...

Cachorro:   Me pegou numa curva, me deu tanta unhada

                   Fazendo de mim um saco de pancada

                   Ele me transformou num verdadeiro pano de chão!

Cachorro :  Foi o Gatão, foi o Gatão

Coro:          A-uhhh...

Cachorro:   Foi tanta mordida, que desacato

                   Ele fez de mim gato e sapato

                   Ralou meu focinho tão bonitinho no áspero chão!

Cachorro :  Foi o Gatão, foi o Gatão

Coro:          Mordeu sem piedade meu rabo ancestral

                   Quase me parte ao meio esse gato anormal!

Cachorro:  Agora só rezo e espero que haja na farmacopéia universal

                  Um santo remédio, já comprovado, mil vezes testado

                  Um  destilado bem adocicado que será chamado:

                  ESFOLA GATO! ESFOLA GATO! ESFOLA GATO!

                  Será o fim de seus problemas com miaus no telhado

                  Cocô na garagem, pêlos no cercado

                  A segurança de seu passarinho piu-piu

                  E de seu amigo au-au.

                  ESFOLA GATO! ESFOLA GATO! ESFOLA GATO!

                  Tsssssssssss... e tchau ! Tchau !

 

 

CANCIÓN POR UNA VACA CUBANA

Ai de mi, que sempre ouvi hablar

          De un gato de bigodes que no tiene corazón

          Vengo acá lo